sexta-feira, outubro 06, 2006

Urgente: globalizar justiça social, ética e humanismo*

Numa época em que os transportes e as comunicações nos permitem chegar rapidamente a qualquer lado, ou, pelo menos, saber o que passa em qualquer parte do planeta, o fenómeno da globalização começa a ganhar novos contornos. O mundo tornou-se mais transparente e o acesso à informação mostra-nos guerras travadas em nome do petróleo, ocupações ilegais que aumentam a instabilidade em vez de a diminuírem, milhões de africanos seropositivos enquanto os direitos de patentes das multinacionais farmacêuticas lhes aportam lucros chorudos e condicionam a produção de medicamentos mais baratos, emigrantes ilegais a viverem em condições sub-humanas, países pobres que vêem a sua dívida externa aumentar a cada dia porque não são livres de controlar os preços ou as taxas dos produtos que fabricam… E à medida que as imagens e os relatos nos entram pela casa, a um ritmo diário, desenvolve-se em nós uma dupla consciência: por um lado, apercebemo-nos de que somos cidadãos do mundo e que o que se passa por lá nos afecta pessoalmente, tornando a globalização num processo natural e inevitável; por outro, concluímos que esta globalização a que assistimos, assente fundamentalmente em pressupostos económicos e políticos, está deslocada, caduca.
Sabiam que há quatro cidadãos americanos que, juntos, possuem tanta riqueza quanto 43 países menos desenvolvidos, equivalendo a uma população total de 600 milhões de pessoas? Será preciso maior prova de que esta globalização está completamente fora do contexto e é, mais do que injusta, ridícula? A dominação exercida pela Europa, desde há cinco séculos, pela América do Norte, desde há um século, e pelo Japão, desde há quatro ou cinco décadas, baseada na exploração e na opressão, está fora do tempo e do lugar. Está na hora de evoluirmos. Está na hora da globalização assumir um carácter mais humano, mais consonante com o lugar que o social e o ético deveriam ocupar na agenda dos diversos governos. Antes que sejamos irremediavelmente corrompidos e nos vamos progressivamente desumanizando e ficando insensíveis à miséria e à carência.

*O livro que acabei de (re)ler ontem fez-me voltar a pensar nisto.

22 comentários:

Parrot disse...

Rosa,

Concordo plenamente contigo. Parabéns por esta reflexão, mas estou muito céptico...até porque a "globalização" é um termo um grande cariz económico....e só interessa para alguns aspectos.

Bom dia

Ana Sousa disse...

Tens mais que razão, mas como diz o Parrot, estou muito céptica qto ao caminho que as coisas levam...

Xana disse...

É urgentíssimo! Mas para que seja possível, não podemos adoptar as postura do cepticismo. Pelo contrário: há que acreditar e dar o exemplo.

Miguel disse...

Olá,
de acordo com a xana, a nossa responsabilidade é constante, mesmo no nosso quotidiano.
Considero a nossa intervenção urgente ao nivel local, não nos podemos esquecer da realidade nacional.
Como tu referes: "...Antes que sejamos irremediavelmente corrompidos e nos vamos progressivamente desumanizando e ficando insensíveis à miséria e à carência."
A banalização da miséria e da morte violenta, leva-nos a querer olhar para o lado (por defesa admito), e esquecemos que ao nosso lado vivem famílias no limiar da pobreza, sem recursos para uma saúde de qualidade, um ensino satisfatório e em última análise, uma morte digna.
Curioso, esta semana devolveram-me um livro que tinha emprestado (aconselho), O Deus da Moscas. Péssimista, crú, cruel...levanos a pensar na frase...O homem é o lobo de si próprio.
Um Beijo.

guga disse...

Também perco algum tempo a pensar nisso, mas depois o consumismo e a rapidez da sociedade deixa-me completamente "dormente" e não devia ser assim. Obrigada por nos lembrares mais uma vez.

bjs sandra

Jorge disse...

Concordo que esse é o pior risco, o de nos desumanizarmos e deixarmos de dar importância ao sofrimento alheio. Há que lutar contra isso com todas as nossas forças.

Tita disse...

Excelente texto, Rosa. Cheio de verdades.

anonimo disse...

Rosinha:
e já pensaste que não faz sentido falar em emigrantes ilegais se pensarmos que o nosso planeta, visto de um qquer vaivem espacial á distancia de poucas centenas de Km's, além de um só até não é assim tão grande...farão sentido as fronteiras politicas? os recursos da Terra deverão ser de todos os Povos!
Beijinho
zeca

wings disse...

O problema da globalização é esse mesmo que referes, boneca: assentar exclusivamente em pressupostos económicos e políticos. Quanto aos sociais, nem vê-los!

Erryaah disse...

Já que falamos de globalização, será que é desta que vou conseguir deixar o meu 'olá'? Começo a achar q o blogger tem algo contra mim...

Erryaah disse...

:) e agora fiquei contente e sem 'lata' pra falar de coisas sérias.

**
(continuo a pensar qual seria o livro)

Cristina disse...

não me parece que haja desumanização, estamos todos muito conscientes das diferenças das injustiças, das desgraças. muito mais que antes..

beijinhos

x-prep disse...

Caramba, faz tanto tempo que não dava aqui um pulinho que até fiquei espantado de isto ter virado blog de politica internacional!:p

Fee disse...

Nunca ninguém disse que a globalização teria só vantagens! É verdade que tanto mais se fala de globalização (em termos económicos e políticos) menos se ouve falar em solidariedade e ajuda ao próximo.
Eu sei que também tenho a culpa e lembro-me muitas vezes que devíamos 'amar o próximo como a nós mesmos', mas é difícil deixarmos de ser egoístas e egocêntricos!
Só quando o Mundo estiver completamete desequilibrado é que vamos cair em nós!!

rob disse...

"O sorriso é o caminho mais curto entre duas almas", é bonito.

footprints disse...

Pois é, Rosa. Tens toda a razão, isso é indesmentivel. E como tu, muitas pessoas que tendo consciência do mundo, tentam fazer algo para o mudar. A pergunta que me atormenta desde cedo é exactamente essa: fazer o quê? Que podemos fazer para mudar, mesmo que seja um pouquinho, este péssimo estado de coisas? Sou membro daquela que me parece ser uma das poucas instituições não corrompidas, a Amnistia Internacional. Faço diferença por isso? Quero pensar que sim, quero acreditar que não o sou apenas para aliviar a consciência, mas, também em consciência te digo que tenho muitas dúvidas, muitas reservas. Repara naquilo a que chamamos "humano". Não seria mais altivo chamar-mos a essa qualidade "animalesca"? Se formos a ver, ao longo dos séculos a humanidade tem sido muito "animal" ao passo que têm sido animais a dar-nos lições sobre o que devia ser "humano". Ser-se humano não é qualidade, é defeito! E um péssimo defeito.
E depois é sempre tão mais simples não pensar. Não pensar, olhar para o lado, fechar os olhos ou, vendo, dizer: pois é, isto está muito mau; para logo a seguir continuar dentro do jogo. E... contra mim falo.

Já agora: reparei que os comentários neste blog costumam ser entre os 20 e os 30, por vezes mais do que isso mas que neste post, até esta altura, apenas 15. Será coincidência? Vamos pensar que sim.

*

boleia disse...

hmm, e que livro foi esse?...

asdrubal tudo bem disse...

Está excelente este post. Ainda hoje deixei um comentário a um post no http://nocinzentodebruxelas.blogspot.com/ que falava sobre a globalização.

elisa disse...

Tens toda a razão, Rosa!E muitas vezes, pergunto-me o que posso fazer para marcar a diferença, para ser uma cidadã do mundo mais empenhada. Mas, se pudessemos começar por mudar mentalidades à porta de casa, seria óptimo!
Beijinhos

escorpiaotenhoso disse...

Com a globalização o mundo ficou mais pequeno, cada vez é mais dificil encontrar uma ilha secreta ou guardar um segredo...
Mas a globalização não é o nosso único aperto de momento. Os fundamentalismos, em especial os religiosos são tenebrosos e ultrapassam quaisquer lógicas...
E retiram-nos a liberdade. Já neste momento...

ET

pp disse...

Rosinha
infelizmente é o caminho que me parece que a humanidade está a tomar...somos cada vez mais considerados numeros nesta globalização....mera estatistica.
Fala-se em todo o lado que o ser humano é que importa e estão em primerio lugar, nsa preocupações do mundo...mas na practica serve só de desculpa para se atingir objectivos de poder e economicos.
:)*

Anna^ disse...

Pior do que a globalização é a indiferença,o "deixa andar".Sózinha não posso mudar o Mundo,mas tento no meu pequeno mundo,mudar alguma coisa;com algumas frustrações á mistura é certo mas enquanto houver empenho...a "gente" vai lá. :)

beijinho