"O sorriso é o caminho mais curto entre duas almas"
Quarta-feira, Novembro 29, 2006
A missa
Estive quase para não ir. Não sabia se teria forças para o suportar. Mas precisava de me despedir, e fui. O padre repetia o vosso nome com uma frequência que me estremecia a alma. E finalmente chorei. Ainda não tinha conseguido chorar. Fez-me bem.
Primeiro achei que tivesse sido uma vez sem exemplo. Um devaneio daquela miúda nova do departamento comercial cujo nome ainda não consegui decorar. De regresso à redacção comentei com as minhas colegas, rematando: “Acham possível alguém olhar-se ao espelho de manhã e achar que aquilo lhe fica bem?”. Elas riram, habituadas a estes meus desabafos, mas advertiram-me: “Olha que está na moda…”. Nem lhes liguei nenhuma. Mas depois, de facto, comecei a reparar na proliferação do fenómeno. Era no café, na papelaria, no multibanco, na fila para o cinema… cheguei mesmo a ver alguns exemplos na repartição de Finanças! Elas andam aí, muito orgulhosas da sua franja arrepiadinha para trás e presa com um gancho no cocuruto da cabeça! Alguém me diz em que telenovela é que há uma heroína a usar isto? Tem que haver alguma. Uma moda assim tão feia não ia surgir do nada.
Eu: (entrando no Departamento de Informática) Ó-H.-lembras-te-de-uma-cena-que-agora-já-não-sei-o-que-era-que-tu-tinhas-que-fazer-no-meu-computador-por-causa-daquelas-coisas-dele-ficar-todo-maluco-e-bloquear-e-mais-aquilo-de-arrastar-os-documentos-do-InDesign-e-ficar-lento-de-repente- e-que-tu-fizeste-só-uma-parte-mas-não-deu-para-fazer-tudo-porque-demorava-muito-e-eu-não-tinha-tempo-e-agora-também-não-tenho-tempo-mas-já-bloqueou-três-vezes-só-para-arrancar-e-eu-tenho-o-suplemento-todo-para-acertar-e-ainda-por-cima-perdi-a-manhã-toda-para-ir-a-uma-conferência-de-imprensa-que-meti-na-cabeça-que-era-no-CCB-mas-cheguei-lá-e-não-havia-nada-porque-afinal-era-na-Fundação-Luso-Americana-e-eu-é-que-sou-maluca-e-fui-para-o-sítio-errado-e-depois- claro-já-não-cheguei-a-tempo-mas-consegui-ficar-com-o-trabalho-ainda-mais-atrasado-mas-pronto-achas-que-podias-fazer-essa-tal-coisa-que-eu-não-sei-o-nome-na-hora-de-almoço? O H.: (olhando para os dois colegas que, por sua vez, olhavam para mim espantados) Perceberam alguma coisa? O P.: (um dos colegas) Eu só percebi até ao “Ó H.”… O H.: (para mim) Se calhar é melhor deixares de beber café…
p.s.: O tempo (ou a falta dele) não me tem deixado visitar-vos. Prometo redimir-me brevemente, tá? Beijos e abraços.
Eu não me choco com facilidade. Mas hoje de manhã ouvi uma conversa entre duas meninas, na primeira fase da adolescência, quase crianças, que, sinceramente, me deixou chocada. Em que raio de mundo é que nós vivemos, afinal? Menininhas de 13, 14 anos que nem sequer sabem o que é masturbar-se, passam logo para o “vamos ver”. Ah, eu sou muito antiquada para entender estas coisas! Passar de brincar de bonecas para o banco de trás do carro de um marmanjo qualquer, assim, directo, sem passar pela casa de partida, sem receber dois contos (contos? viram como sou antiquada?), é o fim do mundo! Sou antiquada, pronto. Gosto de fases.
Primeiro era o tal do “enlarge your penis”, e eu nem tenho pénis, que isso fique bem claro. Agora é o Edmond Cusack, que todos os dias insiste: “I’m cute and bored, let’s meet”. Ora se ele está aborrecido, é porque não tem tido muita acção. E, como até é giro, essa falta de acção deve dever-se a algum problema mais... íntimo. Vai daí, como continuo a receber e-mails do meu amigo mágico que faz os pénis crescer, pensei reencaminhá-los para o Edmond Cusack e, quem sabe, acabar de vez com a vida chata do rapaz. O que acham?
Melhor, não gosto nada que me mintam sem necessidade nenhuma. Ou que me omitam, deliberadamente, determinadas coisas, o que no fundo vai dar no mesmo, porque, lá diz o povo, o que conta é a intenção. E o povo é que sabe. Normalmente fico possessa quando isso acontece. Mas, quando, como agora, são os amigos a mentir-me (a omitir-me, ok, já deixámos esse ponto claro: vai dar no mesmo), fico triste. O que é muito pior. E quando não é a primeira, nem sequer a segunda vez que o fazem, fico ainda mais triste. E com a sensação horrível de que talvez a nossa amizade não seja assim tão importante para essa pessoa como é para mim... Não que o assunto seja grave. Mas exactamente porque o mentir (omitir, certo, assunto arrumado) assim, sem qualquer necessidade, num assunto tão natural, mostra falta de respeito. Ou falta de tomates. Ou, talvez até, falta de carácter. Resumindo, estou triste.*
* E cansada, e a fechar, e a ter uma enxaqueca dia sim, dia não.
Quando eu for importante, vou inventar uma lei que proíba os nossos amigos de arranjar namoradas idiotas. Enquanto a minha lei não sai, vou aperfeiçoando a técnica de aguentar o sorriso com uma grua imaginária…
As fotos e desenhos publicados sem créditos foram retirados da internet ou recebidos por e-mail,
sem identificação do autor. Aceitam-se reclamações para sorrisosaosmolhos@gmail.com.
Obrigada e desculpem qualquer coisinha.